Créditos das Imagens: Kovak & Vieira

17/03/2026

até

18/04/2026

José Ricardo Basiches: Parte vertigem, parte linguagem

Kovak & Vieira

Uma parte de mim;
é multidão
outra parte estranheza
e solidão.

(Ferreira Gullar, Traduzir-se, 1980[1])

O poema Traduzir-se do maranhense Ferreira Gullar, convida-nos a pensar sobre as semelhanças e contradições entre aquilo que nos pertence de forma singular e aquilo que se constrói no âmbito do coletivo.

Kovak & Vieira
Rua Cônego Eugênio Leite, 150 - Jardim America

Segunda à Sexta-feira: 11h30 às 19h
Sábado: 11h30 às 17h

Kovak & Vieira
Rua Cônego Eugênio Leite, 150 - Jardim America

Segunda à Sexta-feira: 11h30 às 19h
Sábado: 11h30 às 17h

Rua Cônego Eugênio Leite, 150 - Jardim America

Galeria de Fotos

Sobre a Exposição

Texto Curatorial: Renata Rocco

Uma parte de mim;
é multidão
outra parte estranheza
e solidão.

(Ferreira Gullar, Traduzir-se, 1980[1])

O poema Traduzir-se do maranhense Ferreira Gullar, convida-nos a pensar sobre as semelhanças e contradições entre aquilo que nos pertence de forma singular e aquilo que se constrói no âmbito do coletivo.

E realmente, vivemos em constante tentativa de separar o “eu” da “sociedade”, a “multidão” da “solidão” e o “barulho” da “quietude”, negociando internamente o que é próprio e o que vem do mundo.

Nesta que é a primeira exposição de José Ricardo Basiches na Galeria Kovak & Vieira, deparamo-nos com obras que nos colocam diante desse embate. Desenhos e grafismos feitos em guardanapos, colagens de materiais diversos sobre tapumes e outros suportes, evocam cidades que podemos ver como transeuntes; assim como espaços de convivência e sociabilidade, tais como restaurantes e locais de lazer e de cultura. Elementos comuns do mundo industrializado — guardanapos, fitas, post-its, barbantes, tijolos, tapumes — surgem como materiais partilhados e reconhecíveis.

Mas Basiches expõe também escritos que, à primeira vista, parecem incompreensíveis e sem relação direta com o mundo exterior. Na realidade, são escritos cifrados que ele entende somente enquanto os redige. E, essa caligrafia não se entrega a uma leitura imediata, o que cria um descompasso entre o que reconhecemos e aquilo que não se deixa captar por completo.

Nascido em São Paulo, formado em Arquitetura e atuando na área desde então, José Ricardo Basiches apresenta em suas obras esse entrelaçamento dos mundos interno e externo. Suportes, técnicas e materiais diversos são atravessados por linhas retas, diagonais e curvas, pontos de fuga e organizações espaciais que remetem ao seu campo de atuação. Cada obra, cada escrita, narra fragmentos de sua história de modo íntimo, sejam eles felizes, traumáticos, assustadores ou dolorosos. E a arquitetura parece organizar não apenas o espaço, mas também sua forma de observar o mundo e de traduzir a si mesmo.

O exercício de extravasar aquilo que habita o interior do artista — independentemente do suporte em que ele o faça — coloca o observador diante de uma experiência intrigante. Entre o compreensível e o incompreensível, entre o que nos é comum e o que permanece exclusivo ao artista, não há apreensão total. Mas emprestando aqui o pensamento de Rosa Montero, aplicado às obras de Basiches, suas criações podem ser entendidas como “fragmentos que, depois de unidos, pulsam em uníssono” [2].

Retomando as palavras de Gullar:

Uma parte de mim
É permanente;
Outra parte
Se sabe de repente.

Uma parte de mim é só vertigem;
outra parte linguagem.

Cabe, então, a nós como observadores, não procurar sentido, explicação e permanência, mas, aceitar a vertigem e a multiplicidade de linguagens das obras de Basiches como parte de uma experiência que ele divide conosco.

[1] GULLAR, Ferreira. Traduzir-se. In:______. Toda poesia. 12. ed. Rio de Janeiro: JoséOlympio, 2004, p. 335. [originalmente publicado em 1980].
[2] Rosa Montero, O Perigo do estar lúcida, São Paulo: Todavia, 2023, p. 104.

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Uma parte de mim;
é multidão
outra parte estranheza
e solidão.

(Ferreira Gullar, Traduzir-se, 1980[1])

O poema Traduzir-se do maranhense Ferreira Gullar, convida-nos a pensar sobre as semelhanças e contradições entre aquilo que nos pertence de forma singular e aquilo que se constrói no âmbito do coletivo.

Kovak & Vieira
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Sábado: 11h30 às 17h