A pintura de Lucas Milano toma a paisagem como ponto de partida e a afasta de sua função descritiva. Suas superfícies organizam-se segundo princípios atmosféricos, de modo que a forma resulta da distribuição da luz e da densidade do ar. As imagens não se fixam num lugar nem se estabilizam em torno de um referente reconhecível, e permanecem em estado gasoso, no limiar entre o aparecimento e o desaparecimento. A leitura que se propõe parte dessa condição para examinar o modo como tais imagens operam enquanto linguagem da abstração.
Terça à Sexta-feira: 11h às 19h
Sábado: 11h às 17h
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A pintura de Lucas Milano toma a paisagem como ponto de partida e a afasta de sua função descritiva. Suas superfícies organizam-se segundo princípios atmosféricos, de modo que a forma resulta da distribuição da luz e da densidade do ar. As imagens não se fixam num lugar nem se estabilizam em torno de um referente reconhecível, e permanecem em estado gasoso, no limiar entre o aparecimento e o desaparecimento. A leitura que se propõe parte dessa condição para examinar o modo como tais imagens operam enquanto linguagem da abstração.
A luz cumpre, nesse processo, função construtiva. Ela opera como o material a partir do qual o campo pictórico adquire consistência, à medida que governa a profundidade, o volume e a extensão do plano. A pintura assume assim a condição de fenômeno, uma vez que produz na própria superfície as variáveis ópticas de uma aparição. A imaterialidade que caracteriza o resultado corresponde a um grau elevado de rarefação da matéria, mantida em suspensão e próxima do estado de vapor, de maneira que o espectador se encontra diante de um acontecimento realizado no instante da visão.
A construção atmosférica implica a subversão do regime natural da paisagem. As leis que regem o mundo observável, entre elas a gravidade, a distância e a permanência dos corpos, encontram-se suspensas, e a superfície passa a obedecer a uma ordem governada pela densidade e pela dispersão. Sob esse regime, a paisagem atinge o estado que se pode descrever como intoxicação, fase em que os limites que a separavam do espaço circundante se dissolvem e o conjunto se satura até converter-se em ambiente contínuo. A passagem corresponde a uma mudança de estado de agregação, na qual o sólido cede lugar ao gasoso e o exterior se converte em condição interna da percepção.
A esse procedimento associa-se a digitalização do sonho. O material onírico submete-se à mediação numérica e retorna à superfície sob a forma de informação luminosa e de ambiente calculado, segundo uma lógica que aproxima a pintura do imaginário digital. Dessa mediação resulta o que se pode designar por nova biologia. As formas que ocupam o plano situam-se no intervalo entre o domínio natural e o domínio artificial, sem correspondência com qualquer taxonomia estabelecida. A tela funciona, nesse sentido, como meio de cultura, espaço no qual tais presenças se constituem e se mantêm sem fixação.
É no termo da análise que se justifica a categoria de abstração espiritual. A expressão tem origem na crítica de arte, que no início do século XX formulou a ideia de um espiritual próprio à pintura e a retomou nos anos 1960 ao reconhecer na abstração o prolongamento do sublime romântico e da tradição da paisagem.
Nessa tradição, o termo refere-se à função que a pintura exerce quando se retira do objeto e passa a registrar o imaterial, à margem de qualquer conteúdo religioso. A obra de Milano inscreve-se nessa linhagem na medida em que converte a paisagem em ambiente e a percepção do lugar na percepção de um estado. O que ela localiza, no intervalo entre o que aparece e o que se retira, é a experiência da imaterialidade que a crítica designou por espiritual.
A pintura de Lucas Milano toma a paisagem como ponto de partida e a afasta de sua função descritiva. Suas superfícies organizam-se segundo princípios atmosféricos, de modo que a forma resulta da distribuição da luz e da densidade do ar. As imagens não se fixam num lugar nem se estabilizam em torno de um referente reconhecível, e permanecem em estado gasoso, no limiar entre o aparecimento e o desaparecimento. A leitura que se propõe parte dessa condição para examinar o modo como tais imagens operam enquanto linguagem da abstração.
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